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"...há anos, me dei conta que o que você faz com a sua vida é somente metade da equação. A outra metade, a metade mais importante na verdade, é com quem está quando está fazendo isso."

16/05/2011

Encontro Marcado com Fernando Sabino

 


Filho de Fernando Sabino lança projeto de memorial em homenagem ao escritor - Há 70 anos, o escritor Fernando Sabino (1923-2004), então com 18 anos, lançava seu primeiro livro, o volume de contos Os grilos não cantam mais. O escritor, que depois daria à literatura brasileira uma de suas obras-primas, O encontro marcado (1956), já demonstrava em seu primeiro trabalho as marcas do estilo e da visão de mundo que desenvolveria durante a vida. Foi cronista que ajudou a fixar o gênero, estilista da simplicidade, artista capaz de tratar os grandes dilemas humanos, da psicologia, da religião e da política, com palavras comuns e impressionante correção ética.

No fim da vida, amargurado com a incompreensão da crítica ideológica a seu livro Zélia, uma paixão, o homem solar deu lugar a um ser recluso e melancólico. Seus últimos anos foram dedicados a recolher suas memórias e recuperar a inocência da infância, que acreditava ser seu destino. Com essa inspiração, e para facilitar a ponte do escritor com as crianças, Bernardo Sabino tem levado a obra do pai às escolas públicas de Minas Gerais e São Paulo. Seu desejo é incentivar a leitura e manter viva a memória do escritor. Das centenas de trabalhos gerados pelo projeto surgiu a ideia de criar um memorial, que será construído em Macacos, na região de Nova Lima.

É uma historia do meu pai que aconteceu de verdade. Ele estava adiantado para uma reunião e foi fazer hora tomando um café no barzinho. Entrou o casal com a filhinha, todos enfeitados. Pediram uma Coca-Cola média e um bolinho. Colocaram a velinha e cantaram parabéns. Meu pai chorou.” É assim que Bernardo Sabino fala sobre “A última crônica”, obra de seu pai considerada uma das 100 melhores crônicas brasileiras, de acordo com a antologia organizada por Joaquim Ferreira dos Santos.

A narrativa, além de delicada, vive na memória do leitor, mais especificamente dos alunos da rede municipal de ensino do interior de Minas Gerais. Eles fazem parte do público do projeto Encontro Marcado com Fernando Sabino. Idealizado por Bernardo, o programa realiza trabalho social e cultural. “Social porque leva a cada cidade por onde passa uma exposição sobre Fernando Sabino. Cultural, já que os estudantes, além do acesso à obra do escritor, são convidados a realizar trabalhos artísticos com base nos escritos de Sabino”, explica Bernardo Sabino. São quadros, desenhos, grafites, crônicas e até apresentações de teatro, tudo produzido pelas próprias crianças. Sem falar na defesa da memória da obra do escritor mineiro, autor de clássicos como O encontro marcado e O grande mentecapto.

O projeto se propõe não só a divulgar esse tipo de ação na cidade, como fazer com que as crianças percebam que a leitura é fundamental para se produzir outra forma de arte”, conta Bernardo. Até 1º de junho, o programa estará presente no Sesc/Laces de Santa Luzia, na Avenida Brasília, 3.505, no Bairro São Benedito. Para o entusiasmado coordenador, trata-se de um exemplo de convivência e respeito: crianças e adolescentes descobrem novas habilidades e os professores aprendem sempre algo novo.


Encontro Marcado com Fernando Sabino é realizado em três etapas. Na primeira, secretários municipais de educação e cultura são apresentados ao projeto e seu plano pedagógico. O segundo passo é instruir as escolas sobre como oferecer material de Fernando Sabino aos alunos. Para que a cidade não tenha custos e possa oferecer acesso à obra a todos os alunos, são enviadas 18 crônicas digitalizadas e 25 filmes, todos licenciados. “Uma coisa é uma empresa querer ganhar dinheiro em cima, outra é divulgar em sala de aula. Por isso eu licencio direitos autorais para uso dos professores”, justifica Bernardo.

Entre as crônicas enviadas, as preferidas dos alunos são “Meu melhor amigo”, “Galinha ao molho pardo”, “Macacos me mordam” e “A última crônica”. Na última etapa, tudo o que foi produzido pelos alunos, além de servir como método de avaliação pelas escolas, passa a fazer parte do acervo do projeto e participar de exposições.

Encontro Marcado com Fernando Sabino foi pensado como atividade comemorativa dos 50 anos de publicação do clássico, em 2006. A primeira atividade foi realizada em Belo Horizonte, no Palácio das Artes, que recebeu exposição sobre e obra do escritor. A partir daí, a mostra se tornou itinerante e evoluiu ganhando perfil pedagógico.

Além das escolas, o projeto integra a programação de feiras literárias. Para o coordenador, os números são significativos. Cerca de 600 escolas públicas já participaram do projeto, além de 30 escolas particulares e 10 universidades. Foram produzidos mais de 1,5 mil trabalhos de artes plásticas e mais de 50 encenações, entre peças de teatro, espetáculos de dança e apresentação de esquetes, vistos por 100 mil pessoas.


Memorial
O que é feito com todo esse material produzido pelos alunos? Ele está bem guardado. E o plano, em breve, é expor tudo num memorial, que será construído em homenagem a Fernando Sabino. Morador de São Sebastião das Águas Claras, conhecida como Macacos, distrito de Nova Lima, Bernardo acaba de alugar um galpão na cidade. “Vamos restaurar o espaço e expor os trabalhos dos meninos aqui. O projeto é longo e, aos poucos, vamos transformar esse local num centro de referência do meu pai”, adianta.

Além das obras produzidas pelos alunos, o espaço deverá receber escritório, área de estudos, oficinas e tenda para eventos. “Macacos dá um glamour. É bacana haver um memorial do meu pai num lugar assim. A ideia é também fazer daqui uma referência turística, com outras atrações além de bares, restaurantes e cachoeiras”, propõe o coordenador.

Bernardo revela que tem muitas gravações da voz do pai e uma importante coleção de fotos, que pretende expor no memorial. Mas, antes de instalar o equipamento, a equipe quer prestar outro serviço à comunidade: “Vamos fazer uma oficina para restaurar trabalhos das crianças, peças da exposição e qualificar artesãos da cidade para trabalharem com arte”, conta Tarcísio Ribeiro, diretor artístico da exposição.

Infância
Para honrar o desejo do pai, Bernardo se prepara para uma mudança no projeto: sai o Encontro marcado e entra O menino no espelho. “Em vez do trem que hoje faz parte das exposições, vamos criar labirintos de espelho, projetar palavras em vidros. A ideia é chamar o circuito de Reflexos e reflexões de Fernando Sabino”, conta Bernardo. Ele faz questão de lembrar que tudo é feito em acordo com os irmãos, incluindo o mais velho, Pedro, responsável pelos direitos autorais, e a cantora Verônica Sabino, que eventualmente participa do projeto.

Quero resgatar a infância, como está na lápide do meu pai. Ele achava que o mundo seria melhor se as pessoas resgatassem a infância e a inocência. Acho que a gente, espontaneamente, acabou indo para esse caminho. Não sei se tem a mão dele”, afirma Bernardo. Além do novo tema e decoração, está prevista a utilização de computação gráfica e elementos multimídia. E vem surpresa por aí: O grande mentecapto pode inspirar ópera com música de Wagner Tiso, que se mostrou interessado no tema.

Fernando Tavares Sabino (Belo Horizonte, 12 de outubro de 1923 — Rio de Janeiro, 11 de outubro de 2004) foi um escritor e jornalista brasileiro. Durante a adolescência, foi locutor de programa de rádio Pila No Ar e começou a colaborar regularmente com artigos, crônicas e contos em revistas da cidade, conquistando prêmios em concursos

Faleceu em sua casa em Ipanema (zona sul no Rio de Janeiro), vítima de T.A.F no fígado, às vésperas do 81º aniversário. A pedido, o epitáfio é o seguinte: "Aqui jazz Fernando Sabino, que nasceu homem e morreu menino!"

ENCONTRO MARCADO COM FERNANDO SABINO POR MINAS GERAIS
Sesc/Laces, Avenida Brasília, 3.505, São Benedito, Santa Luzia. Até 1º de junho, de segunda a sexta-feira, das 8h às 20h, e aos sábados e domingos, das 9h às 16h. Entrada franca. Informações: (31) 3637-2336.

FONTE

01/05/2011

Operário em Construção

 

O poema “O operário em construção” escrito por Vinícius de Moraes em 1956, e descreve o trabalho como base da vida humana e o processo de tomada de consciência de valor de um operário, partindo de uma situação de completa alienação: “tudo desconhecia/ de sua grande missão”, sem saber “que a casa que ele fazia/ sendo a sua liberdade/ era a sua escravidão”...

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem
é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
- Garrafa, prato, facão -
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
- Exercer a profissão -
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
- "Convençam-no" do contrário -
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
- Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

- Loucura! - gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
- Mentira! - disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.

by VINICIUS DE MORAES


A suspensão de sua alienação se inicia, quando o operário começa a tomar consciência, quando acordou foi tomado “de uma súbita emoção” ao constatar que era ele que fazia todas as coisas: garrafa, prato, facão, “gamela/ banco, enxerga, caldeirão,/ vidro, parede, janela,/ casa, cidade, nação”. Não apenas os objetos de uso cotidiano, como roupas, alimentos, casa, mas também instituições (cidade, nação), e o próprio operário, resultam do trabalho.

SUGESTÃO DE FILME: Tempos Modernos (Charlie Chaplin)